terça-feira, novembro 25, 2014

Vida- morte ou vise-versa








 


Ele fez uma série que chamou “Solidão urbana”. Estou de acordo com muitos itens.
Há muitos solitários em todos os lugares. Mas, onde não estaria o solitário urbano?
No bar tomando chope com amigos? Na cama com a amada? No ‘lar’ ao lado dos seus rebentos? Numa sala de reunião com colegas trocando ideias? Numa praia jogando vôlei? No campinho jogando uma pelada? Na cafeteria tomando um café com a amiga? Num projeto social como voluntário? No divã do analista?
Onde o homem não sente solidão?
Eu me sinto confortavelmente acompanhada quando os filhos estão por perto. Quando estou com a minha sobrinha. Quando tenho um amigo/a querido por perto. Durante o trabalho. Quando estava enamorada e retinha o amor- afeto dele em mim- mesmo à distância.
Acredito que é quando posso amar- dar amor.
Há momentos em que estou só e não me sinto solitária- pode ser pendurando uma roupa no varal, ou cuidando das plantas, ou fazendo um conto. Posso lavar roupas na mão e enquanto esfrego fazer um conto. Acontece muito. Saio daqui e vou descansar na lida doméstica. Conforta cuidar da casa- tira da subjetividade mais densa- afinal continuo pensante.
O que é solidão?
O homem é essencialmente só. Todos sabemos. E daí? Nascemos e morremos sós. É fato.
Outro dia me senti mal- uma tontura, um desfalecimento. Meu filho estava perto, pegou o aparelho para ver a pressão arterial. Normal. Comecei a chorar. Ele perguntou: “Mãe, por que está chorando?”. Não respondi. Mas eu sei. Senti uma solidão profunda, um luto, e entendi como é a morte.
Solidão abissal é morte. Ou vice- versa.

O marido da vizinha I- revisto










O marido da vizinha I


Dan foi deitar à tarde, vou atrás dar um beijo e fechar as janelas.
Vejo a casa da vizinha, tão bem cuidada, tão perfeita, nunca havia visto uma casa tão bem tratada. Lembra a casa da cunhada de “Mon oncle” de 
Jacques Tati. Todos os dias lembro do filme olhando da minha varanda os caminhos traçados no jardim, as plantas aparadas milimetricamente, a fonte na piscina recente.

- Coitada de vizinha, ficou viúva tão cedo.
- Por que está dizendo isto, mãe?
- Porque o marido dela morreu.
- Como você sabe que ele morreu?
- Por que eu sei, ele sumiu.
- Você é maluca, mãe, ele pode ter viajado...
- Eu sei, pode ter ido atrás de outra mulher, pode estar doente na cama... mas ele morreu.
- Credo, mãe, você é doida mesmo, inventa cada coisa.
- Não estou inventando, o pobre do homem amava tanto esta casa, acabou de fazer a piscina e mal aproveitou, morreu.
- De onde você tirou isto, mãe? Esta tua maluquice?
- No dia do seu aniversário, eu acordei às sete e quinze- sei a hora porque você havia acabado de sair para a escola- abri a varanda e em vez de ver o vizinho fumando seu cigarrinho na varanda esperando o táxi, eu vi dois carros na porta e gente andando pela varanda nervosamente.
- Como você sabe que estavam nervosos?
- Ah, Dan, tinha um homem que se parecia com o vizinho que andava de lá para cá, angustiado.
- Pensei primeiro que a casa tivesse sido assaltada, Betânia, quando chegou, pensou na possibilidade da mulher ter morrido e não o marido, pensou em seqüestro, também, mas não havia carro da policia...
- Você fica vigiando a casa dos vizinhos, mãe, que feio...
- É impossível não ver, filho, é como no filme do Hitchcock. Lá pelas duas da tarde, apareceu a mocinha na varanda, ela nem conseguia andar direito. As pessoas da manhã já haviam ido embora. O namorado chega e ela chora abraçada a ele um tempão, mais tarde a mãe aparece e eu e Betânia ficamos aliviadas- não foi ela que morreu.
- Vocês duas são malucas, mãe.
- Meu filho, impossível não querer saber o que houve, eu gostava do vizinho só de ver, eu ficava namorando a casa com ele, o jardim impecável... não estou dizendo que paquerava o vizinho, viu? É da casa que eu gosto.
- Não sei porquê, casa mais cafona, toda arrumadinha.
- É o que ela representa, filho. Você não entende ainda destas coisas.
- Você é doida, quando fizeram a piscina disse que a filha deles iria casar, agora que o pai dela morreu...
- Ainda acho que ela vai casar. Depois te conto.

PS: Esta crônica é baseada em fatos verídicos, conto o final depois no II, alguns de vocês já conhecem o fim da história.

Trecho filme aqui.

sexta-feira, outubro 31, 2014

O poeta frugal- Carlos Drummond de Andrade




 



Chá das quatro com Drummond


Drummond se aproximou mais de mim, não sei exatamente porquê, depois da morte de Pedro Nava, fui amorosa com ele, fiz um cartão com um desenho bonito, caminhamos de mãos dadas por Ipanema...Ele sofreu muito com a morte de Nava, não se conformava, dizia: "Por que ele fez aquilo?"
Não sabíamos do drama que Nava vivia na ocasião.

Ele me perguntava, todos os dias, como seria a minha tarde no dia seguinte, e eu lhe dizia que teria um dia de trabalho cheio, às vezes mentia, eu não queria estar a sós com ele. Pode parecer estranho para muitos, mas é verdade, eu tinha receio de criar uma expectativa muito grande e não corresponder, não queria ser culpada por vê-lo infeliz.

Nesta ocasião ele rompeu com a namorada, por uma razão que não lembro, uma bobagem, disse que não a queria mais. Fiquei assustada, eu era muito discreta, não o procurava, esperava que ele se aproximasse.

Eu estava, naquele momento, completamente apaixonada por outro homem, impossível jogar charme a quem fosse, mesmo para o poeta. Eu lhe contava sobre o meu amor, e ele dizia que se eu quisesse manter a paixão deveria viver em casas separadas, como ele fez com a namorada, estavam juntos há trinta anos, como amantes.

Um dia eu o convidei para tomar chá comigo. Ele trouxe de presente uma gravura abstrata de Renina Katz, em azul, muito bonita. Elogiou meus desenhos, contou muitas histórias de flertes e namoricos que teve ao longo da vida. Preparei uma bela mesa com chá inglês, geleia dinamarquesa, quindim mineiro, torradas...Tomou chá, disse que a mesa era linda, mas ele era frugal. Todas as vezes que ouço esta palavra lembro dele- frugal- combina com o Carlos. Ele me pedia para chamá-lo assim, eu preferia Drummond, era como o conhecia antes, só quando me corrigia chamava-o pelo primeiro nome.

Tenho saudades de Carlos, o poeta frugal.



terça-feira, outubro 14, 2014

O zen e a bicicleta












A SIMPLICIDADE ZEN


Ao ver cinco dos seus alunos voltando do mercado de bicicleta, o Mestre Zen decidiu testá-los:
– Por que vocês estão montando as suas bicicletas?
O primeiro estudante respondeu:
– A bicicleta é para levar este saco de batatas. Eu estou contente por não ter precisado carregá-lo em minhas costas!
O professor elogiou o estudante, dizendo:
– Você é um rapaz inteligente. Quando envelhecer, não vai andar curvado, como eu.
O segundo aluno respondeu:
– Adoro ver o campo e as árvores enquanto pedalo no caminho!
O professor elogiou o estudante:
– Significa que seus olhos estão abertos e você vê o mundo.
O terceiro aluno respondeu:
– Eu fico feliz ao montar minha bicicleta, e começo a cantar.
O professor deu louvor ao terceiro aluno, acrescentando:
– Sua mente vai funcionar com a facilidade de uma roda recém-montada.
O quarto estudante do quarto respondeu:
– Andando de bicicleta, eu me sinto em harmonia com todos os seres.
O professor ficou satisfeito e disse:
– Você está andando no caminho de ouro do não-prejudicar.
O quinto aluno respondeu:
– Eu ando de bicicleta para andar de bicicleta.
O professor sentou-se aos pés do quinto aluno e disse:
– Eu sou seu discípulo.
via Consciência Cósmica


quinta-feira, setembro 18, 2014

Conto- O outro












Faz calor, as pernas dela doem inchadas, lamenta o dia todo:
"Ai minhas pernas... ai como doem". Fala com o cão, que a olha indiferente.
Teve lindas pernas, além de bonitas, lisas. Ele dizia: "Sente aqui do meu lado", ela colocava suas pernas sobre as dele, que as tocava- dedos suaves- alisando-as em direção à sua púbis. 
"São minhas estas pernas de seda, cor de âmbar", dizia. 
As mãos dele estão longe. Se tivesse morrido sofreria menos, mas não, está vivo, e as mãos alisam agora pernas torneadas e masculinas. Nunca pensou ser deixada por outro. Ainda o vê  sorrindo e se entristece. Às vezes se pergunta se é mais dolorido por ser um homem, ou seria maior a dor se fosse outra? Deve ser belo e forte. Ela é frágil, chora à toa. Não imagina o outro chorando no ombro dele.

As pernas incham porque mal caminha. Não só as pernas sofrem, sente falta de ar, não gosta de abrir as janelas. A casa cheira a mofo, respira com dificuldade. 
Não se importa.

quarta-feira, setembro 10, 2014












Daqui

"É como uma nuvem no céu. Quando a nuvem não está mais no céu, isso não significa que a nuvem morreu. A nuvem continua em outras formas, como a chuva, neve ou gelo. Assim, você pode reconhecer a sua nuvem em suas novas formas.
Se você gosta muito de uma bela nuvem e sua nuvem não está mais lá, você não deve ficar triste. Sua nuvem amada pode ter se transformado em  chuva convidando você: "Querida, querida. Não me vê em minha nova forma?" E então você não vai ficar impressionado com o sofrimento e desespero. Seu amado continuará sempre.  Meditação ajuda a reconhecer sua presença contínua em novas formas. E a nossa natureza é a natureza do nenhum nascimento e nenhuma morte ... a natureza de uma nuvem também. A nuvem nunca pode morrer. Uma nuvem pode se tornar neve ou granizo ... ou chuva. Mas é impossível que uma nuvem passe de ser para não-ser. E isso é verdade com o seu amado. Ela não morreu. Ela é prolongada em muitas novas formas. E você pode olhar profundamente e reconhecer-se em você e ao seu redor."

Thich Nhat Hanh

quinta-feira, setembro 04, 2014

quarta-feira, agosto 13, 2014

Arte contemporánea e farsa, por Avelina Lésper







A Arte Contemporânea é uma farsa: Avelina Lésper

Com a finalidade de dar a conhecer seus argumentos sobre os porquês da arte contemporânea ser uma “arte falsa“, a crítica de arte Avelina Lésper apresentou a conferência “El Arte Contemporáneo- El dogma incuestionable” na Escuela Nacional de Artes Plásticas (ENAP)sendo ovacionada pelos estudantes na ocasião.
 A arte falsa e o vazio criativo
A carência de rigor (nas obras) permitiu que o vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência passassem a ser os valores desta arte falsa, entrando qualquer coisa para ser exposta nos museus 
A crítica explica que os objetos e valores estéticos que se apresentam como arte são aceites em completa submissão aos princípios deuma autoridadimpositora. Isto faz com que, a cada dia, formem-se sociedades menos inteligentes aproximando-nos da barbárie.
Ready Made
Lésper aborda também o tema do Ready Madeexpressando perante esta corrente “artística” uma regressão ao mais elementar e irracional do pensamento humano, um retorno ao pensamento mágico que nega a realidadeA arte foi reduzida a uma crença fantasiosae sua presença em umero significado. “Necesitamos de arte e não de crenças”.
Génio artístico
Da mesma maneiraa crítica afirma que a figura do “génio”, artista com obras insubstituíveisjá não tem possibilidade de manifestar-se na atualidade“Hoje em dia, com a superpopulação de artistas, estes deixam de ser prescindíveis qualquer obra substitui-se por outraqualqueruma vez que cada uma delas carece de singularidade“.
status de artista
A substituição constante de artistas dá-se pela fraca qualidade de seus trabalhos, “tudo aquilo que o artista realiza está predestinado a ser arte, excremento, objetos e fotografias pessoais, imitações, mensagens de internet, brinquedos, etc. Atualmente, fazer arte é umexercício ególatra; as performances, os vídeos, as instalações estão feitas de maneira tão óbvia que subjuga a simplicidade criativaalém de serem peças que, em sua grande maioria, apelam ao mínimo esforçcuja acessibilidade criativa revela tratar-se de uma realidade que poderia ter sido alcançada por qualquer um“.
Neste sentido, Lésper afirma queaconceder o status de artista a qualquer umtodo o mérito é-lhe dissolvido e ocorre uma banalização.“Cada vez que alguém sem qualquer mérito e sem trabalho realmente excepcional expõea arte deprecia-se em sua presença e concepçãoQuanto mais artistas existirem, piores são as obrasA quantidade não reflete a qualidade“.
 Que cada trabalho fale pelo artista
O artista do ready made  atinge a todas as dimensões, mas as atinge com pouco profissionalismo; sfaz vídeo, não alcança os padrões requeridos pelo cinema ou pela publicidade; sfaz obras eletrónicasmanda-as fazersem ser capaz de alcançar os padrões de um técnico mediano; senvolve-se com sons, não chega à experiência proporcionada por um DJ; assume que, por tratar-se de uma obra dearte contemporânea, não teporquê alcançar um mínimo rigor de qualidade em sua realização.
Os artistas fazem coisas extraordinárias e demonstram em cada trabalho sua condição de criadoresNem Damien Hirst, nem Gabriel Orozco, nem Teresa Margolles, nem já imensa e crescente lista de artistas o são de fato. E isto não o digo eu, dizem suas obras por eles“.
 Para os Estudantes
Como conselho aos estudantes, Avelina diz que deixem que suas obras falem por eles, não um curador, um sistema ou um dogma. “Suaobra dirá se são ou não artistas e, se produzem esta falsa arte, repito, não são artistas”.
O público ignorante
Lésper assegura que, nos dias que correm, a arte deixou de ser inclusiva, pelo que voltou-se contra seus próprios princípios dogmáticos e, caso não agrade ao espectador, acusa-o de “ignorante, estúpido e diz-lhe com grande arrogância que, se não agrada é por que não apercebe“.
O espectador, para evitar ser chamado ignorante, não pode dizer aquilo que pensauma vez que, para esta arte, todo público que não submete-se a ela é imbecil, ignorante e nunca estará a altura da peça exposta ou do artista por trás dela.Desta maneira, o espectador deixa de presenciar obras que demonstrem inteligência”.
Finalizando
Finalmente, Lésper sinaliza que a arte contemporáneé endogámica, elitista; com vocação segregacionista, é realizada para sua própriaestrutura burocrática, favorecendo apenas às instituições e seus patrocinadores. “A obsessão pedagógica, a necesidade de explicar cada obra, cada exposição gera a sobre-produção de textos que nada mais é do que uma encenação implícita de critériosuma negação àexperiência estética livre, uma sobre-intelectualização da obra para sobrevalorizá-la impedir que a sua percepção seja exercida comnaturalidade“.
A criação é livre, no entanto a contemplação não é. “Estamos diante da ditadura do mais medíocre”
fonte: Vanguardia
Assista o vídeo aqui.