quinta-feira, junho 18, 2015

Contardo Calligaris- O mistério de Viviany

  






Durante a última Parada Gay, no domingo (7), uma jovem e bonita transexual, Viviany Beleboni, desfilou em cima de um trio elétrico, crucificada, com coroa de espinhos na testa, chaga do lado, sangue e expressão contida de agonia. No alto da cruz, um cartaz: "Basta de homofobia com GLBT (sigla para gays, lésbicas, bissexuais e transexuais)".
Viviany encenou a paixão final de Cristo. Houve pessoas para se indignarem, achando a performance satírica –o que é francamente bizarro: a encenação não debochava nem um pouco.
A própria já respondeu: "Jesus morreu por todos e foi humilhado, motivo de chacotas, agredido e morto, que é o que vem acontecendo diariamente com LGBTs, por não termos leis". Concordo, só não sei se isso acontece por não termos leis ou por termos muita "gente ignorante que não entende arte", como Viviany também disse, com razão.
Arte, alguém perguntará? Sim, claro, a performance de Viviany pertence a uma das formas tradicionais da arte teatral no Ocidente: os mistérios da Idade Média. Eram encenações sem palavras, do alto de charretes estacionadas ao redor da praça da igreja.
A representação da Paixão de Cristo nunca faltava durante a Semana Santa. E a tradição não se perdeu. Sobraram, por exemplo, as encenações grandiosas que são transmitidas pela TV.
Hoje, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém é encenada por atores globais. Agora, entre Viviany Beleboni e Thiago Lacerda, prefiro Viviany. Lacerda é bom ator, mas ela tem a autenticidade tocante de quem vive a Paixão a cada dia.
Vendo seu torso na cruz, só é possível pensar no calvário de quem é transgênero. Como é possível que alguns se sintam ofendidos por isso?
1. Em geral, os que transformam a fé em comércio preferem deter o monopólio de seu profeta, de seus dogmas, de suas cerimônias etc. Alguns não gostaram da encenação de Viviany, suponho, porque querem ser os únicos donos do Cristo –para vendê-lo melhor.
2. Estranho paradoxo: os que se indignaram porque Viviany desfilou na cruz são os mesmos que se agitam para que a vida dela seja um tormento: fomentam o preconceito contra ela, tentam impedir que possa se casar ou mesmo dispor de um registro de identidade certo para seu gênero –o que permitiria que ela assinasse um contrato de aluguel, trabalhasse com carteira etc.
Na quarta-feira (10), justamente, a dita "bancada evangélica" da Câmara protestou contra a performance, recitando um pai-nosso e erguendo fotografias que misturavam o obsceno ao sagrado. A bancada se sentiu ofendida pelo quê?
3. Ninguém se indignaria se quem desfilasse na cruz, identificando-se com o sofrimento de Cristo, fosse um peregrino penitente, um enfermo incurável ou, ainda, a vítima de uma tremenda injustiça social.
De fato, os homossexuais, sem nem mencionar os transgêneros, morreram nos grandes matadouros do século 20 e, da democrática Inglaterra até a Cuba comunista, foram vítimas de perseguições até os anos 1960, no mínimo.
Isso não conta para nossa "bancada evangélica". Porque, aparentemente, para nossa "bancada evangélica", tudo o que tem a ver com sexo (ou com gênero –para ela, aliás, tanto faz) é uma questão de falta de vergonha.
Para a tal bancada, o mistério encenado por Viviany só pode ser pornográfico porque ela é transgênero.
Prefiro nem imaginar os caminhos pelos quais os membros de nossa bancada chegaram a essa conclusão –suponho que seja uma mistura de ignorância com fantasias reprimidas, e uma dose de má-fé com a qual perco até a vontade de argumentar.
Em 1991, Oliviero Toscani tornou famosa uma fotografia de Therese Frare, que mostrava o ativista David Kirby no leito de morte, com seu pai, sua mãe e sua sobrinha.
Toscani chamou a foto de "A Pietà", que é o nome dado às representações da Virgem Maria chorando o filho depois de ele ter sido descido da cruz.
A "bancada evangélica" da época protestou, justamente porque Kirby, por mais que estivesse sofrendo, estava morrendo de Aids –vítima, segundo ela, de sua vida "promíscua".
Bom, a fotografia de Frare tornou-se, segundo a revista "Life", uma das "Cem Fotografias que Mudaram o Mundo".
E Toscani respondeu: "Chamei a foto de David Kirby e de sua família 'A Pietà' porque é uma Pietà que é real. A Pietà de Michelângelo, no Renascimento, pode ser falsa, Jesus Cristo pode nunca ter existido.
Mas sabemos que esta morte aconteceu. Essa é a coisa mesma (a Pietà verdadeira)". 

quinta-feira, maio 21, 2015

Vida e morte- um novo olhar






 






Há anos, Gustavo, o poeta e filósofo, me contou, que uma amiga dele, jornalista, disse que jamais leria um blog com o título do meu. Eu rio porque o nome eu criei sem amadurecer a ideia, como costumo fazer as coisas por aqui, e não soube trocar. Fiz este blog num impulso. Queria algo que sugerisse vida, me incomoda um pouco hoje, mas sou bastante conhecida através deste link- ficará. 
Quanto a jornalista, lamento por ela, perdeu.
Quero voltar a postar, mas anda difícil. Muitas pequenas coisas me atrapalham, falta organização no meu dia- um dia eu chego lá.
Eu sempre disse, desde que conheci o budismo, que um dia seria budista- cada dia estou mais perto. 

Sigo os oito caminhos de Buda, por isso também tenho me exposto menos- estou mais atenta ao que digo. A palavra correta, a palavra que não é vazia. Flávia diz: escreva mais, as pessoas se identificam e gostam. Sei que é verdade, muitas vezes me disseram isto. Quantas mulheres se aproximaram de mim, contando histórias pessoais comoventes depois de me lerem. Fora o dia a dia, o jogo de alegrias e dores do cotidiano.

Hoje acordei ligada, fiz muitas coisas, enquanto lavava roupas, preparava outro balde de compostagem e tal.

Estou mais leve e feliz. O que estranho porque dia 21 de maio me marcou dolorosamente, porque é o dia da morte do C. Faz sete anos! Sei porque não chorei pela primeira vez- estou vendo a morte sob novo ângulo, menos árido. 

Depois de uma vida ignorando racionalmente a reencarnação, agora me curvo e me sinto mais aliviada. Tão bom saber que o que ganhamos nesta vida levaremos para outra... dá certo conforto- então não viraremos apenas pó. A sabedoria oriental, secular, diz isto. Não é algo como dogma, eu entendi melhor o que viemos fazer nesta Terra maravilhosa. Nunca deixei de achar a natureza perfeita e divina. Era um tanto panteísta.
Deus estaria em tudo- o budismo diz isto- deus está em todos nós, mesmo nos homens vis- uma centelha divina nos habita, cada um faz o que quer com ela- nosso livre artítrio.

Falei com minha querida amiga Cinézia, exemplo de mulher- faz 82 anos, acho, e ainda sai para trabalhar diariamente, faz compras, vai a Bancos. Minha ídala. Uma baixinha, paraense arretada, vive no Rio desde jovem, chegou e foi empregada doméstica, logo virou secretária de Iracy Doyle e, mesmo depois da morte inesperada de Iracy, trabalha até hoje na sociedade psicanalítica fundada pela psicanalista. Grande Cinézia, mãezona de todos ali. Eu e meus filhos a amamos muito.

Agora vou sentar e meditar- precisava escrever antes.
Namastê.
(Interessante, quando criei o blog, me despedia com Namastê, depois deixei porque soava falso.)

quarta-feira, abril 22, 2015

Dia da Terra- arquivo blog revisado




















É estranho ver pessoas ignorarem a Terra- maltratarem. É assustador. Será que não têm consciência da sua importância?
Eu não gosto de fazer posts falando da Terra, é tudo tão óbvio, é tudo tão batido. Basta ver uma cena destas das fotos, ou olhar o céu, ou o mar para sentirmos o quanto Ela é poderosa e nos sentirmos felizes por fazermos parte deste todo- somos Uno: universo, seres humanos, animais, vegetais, minerais. Somos tão insignificantes diante desta grandeza, deveríamos reverenciá-la em todos os momentos.
Ontem vi o mar iluminado pela lua. Em alguns momentos escurecia pelas nuvens e o prata virava azul marinho. Momento de magia. Queria poder ficar ali observando até o fim. Quero morrer olhando o mar. E, ai, voltar para a terra em paz.

terça-feira, abril 21, 2015

Vida e renovação












Há dias em que escrevo mentalmente como se estivesse escrevendo para vocês. Coisas que sempre gostei de compartilhar, minhas conversas com o jardineiro, historinhas da faxineira, uma imagem que vi por ai. O dia passa e não estive aqui.
Hoje amanheci pensando muito e quero contar para vocês o que pensei. Conto para que fique registrado para mim este momento.
Estive num retiro espiritual, recebi Shatkipat*. Como vocês sabem sempre me senti absolutamente incrédula, mas bastante mística- era uma contradição. Algo em mim era refratário a qualquer crença- suponho que isto tenha sido uma reação à educação religiosa que tive, onde senti tanta hipocrisia e falta de compaixão com o outro.
Estudei anos numa escola de freiras e minha mãe era muito católica. Meu pai sempre foi espiritualizado, mas em outro caminho, lia muito Krishnamurti- era de um grupo que se reunia para estudar o Santo Graal- praticava Yoga, jejuava periodicamente, se tratava com hidroterapia- cura através da água.
Aos 16, 17 anos, morei em Curitiba, voltei para lá depois de nos mudarmos para Cabo Frio. O melhor colégio era o das freiras e para lá eu não iria- nem cogitamos, ou se minha mãe tentou nem lembro. Fui morar com a avó materna em Curitiba e pasmem- agora que percebi- fui para um colégio de freiras. A experiência ali foi muito boa para mim, eu me sentia querida pela madre diretora, mas, ainda assim, percebia o tratamento excessivamente rígido  que mantinham com as jovens internas.
Viver com a avó- que eu sentia que não gostava de mim, com uma tia, idem- foi doloroso. Sofri muito lá, me fez muito mal.
Mas, em Curitiba eu pratiquei yoga em algum lugar e aprendi a fazer os exercícios em casa. Fazia diariamente, tinha um caderninho de papel pardo pequeno onde desenhei todas as posturas.
Voltei para Cabo Frio um ano e meio depois, suponho, machucada, à flor da pele. Não fui bem recebida pela mãe- eu praticamente fugi da casa da avó- e minha mãe acreditou nas histórias que a avó inventava sobre mim. Anos depois descobriram que ela estava sentindo-se perseguida, mentalmente perturbada.  Foi tarde. As marcas ficaram, hoje não sinto mais nada, mas tudo isto repercutia na minha vida, claro.
Vim morar em Natal em 2002, dezembro, lá por 2004 tive meu primeiro contato com o budismo, Monja Sherab. Fiquei encantada com a postura e a tranquilidade dela, sai de lá dizendo que queria ser budista. Li bastante sobre budismo estes últimos anos, vi muitos vídeos de Lama Michel Rinpoche- o que me ajudou bastante - fiz retiros, simpatizava, mas não conseguia meditar.
Uma vez, eu disse para uma moça que se preparava para ser monja  e nos ensinava práticas: “Eu namoro o budismo há muitos anos”, ela respondeu: “ Então está na hora de noivar.”
Há anos isto me incomodava- o desejo de praticar e a impossibilidade de me manter sentada, tentei muitas vezes, mas desistia porque me sentia ainda incapaz, dizia: um dia eu chego lá.
Cheguei e estou muito feliz.
Comentei com meu filho que foi muito rápida a minha mudança interna, ele disse: “Mãe, há anos você se repara!”. Verdade.
Se não fosse ter conhecido Paulo Tarcísio, mestre na escola que frequento, a Nova AcrópoleParnamirim, demoraria mais para ter uma visão diferente da vida e da morte. Minha gratidão a ele é enorme.

Ah! Não virei budista, tenho muita dificuldade com compromissos, mas aprendi a meditar com Swami Nardanand. É um indiano, médico Ayurveda, mestre em Yoga e filosofia, e, para minha sorte, está construindo um Ashram* em Natal! Agora fechou o ciclo, entendi o porquê de ter vindo morar aqui.
A vida tem muitas coisas que não entendemos, feliz daquele que um dia percebe que tudo aquilo que viveu faz sentido- eu não acreditava e sofria muito por isto.
Namastê!
(Interessante, quando comecei meu blog, em 2005, eu me despedia com Namastê*, depois achei sem sentido e retirei a saudação).
Namastê* - A divindade em mim saúda a divindade que está em você.
Ashram- espaço para desenvolver a vida espiritual.
Swami- aquele que domina a si mesmo.
Shakitipat- Leia aqui, não ouso explicar ainda escrevendo.


quarta-feira, fevereiro 11, 2015

O primeiro dia do resto de nossas vidas











Hoje é um dia marcante para nós, eu e filhos, Lucas foi morar com a namorada. Não me entristeci, ele está feliz, com belos planos. O irmão estranha, diz que sentirá muita falta. Há algum tempo sinto falta dele, tem estado muito pouco por aqui. Saiu com mala, computador, guitarra. Me abraçou mais de uma vez, sentido, creio preocupado comigo.

Filhos precisam criar asas. Lucas alçou voo. Seja feliz, meu querido.

domingo, dezembro 21, 2014

Vida









"Não se debruce muito sobre as tristezas".

Observe a natureza,
o canto dos pássaros,
a aquarela das flores,
a dança do vento.
O mar. 
Ah! A lua sobre o mar...
Aplaque as dores com o belo.
Pratique a delicadeza.
 Encontrará leveza para a possível alegria de viver.

terça-feira, novembro 25, 2014

Vida- morte ou vise-versa








 


Ele fez uma série que chamou “Solidão urbana”. Estou de acordo com muitos itens.
Há muitos solitários em todos os lugares. Mas, onde não estaria o solitário urbano?
No bar tomando chope com amigos? Na cama com a amada? No ‘lar’ ao lado dos seus rebentos? Numa sala de reunião com colegas trocando ideias? Numa praia jogando vôlei? No campinho jogando uma pelada? Na cafeteria tomando um café com a amiga? Num projeto social como voluntário? No divã do analista?
Onde o homem não sente solidão?
Eu me sinto confortavelmente acompanhada quando os filhos estão por perto. Quando estou com a minha sobrinha. Quando tenho um amigo/a querido por perto. Durante o trabalho. Quando estava enamorada e retinha o amor- afeto dele em mim- mesmo à distância.
Acredito que é quando posso amar- dar amor.
Há momentos em que estou só e não me sinto solitária- pode ser pendurando uma roupa no varal, ou cuidando das plantas, ou fazendo um conto. Posso lavar roupas na mão e enquanto esfrego fazer um conto. Acontece muito. Saio daqui e vou descansar na lida doméstica. Conforta cuidar da casa- tira da subjetividade mais densa- afinal continuo pensante.
O que é solidão?
O homem é essencialmente só. Todos sabemos. E daí? Nascemos e morremos sós. É fato.
Outro dia me senti mal- uma tontura, um desfalecimento. Meu filho estava perto, pegou o aparelho para ver a pressão arterial. Normal. Comecei a chorar. Ele perguntou: “Mãe, por que está chorando?”. Não respondi. Mas eu sei. Senti uma solidão profunda, um luto, e entendi como é a morte.
Solidão abissal é morte. Ou vice- versa.

O marido da vizinha I- revisto










O marido da vizinha I


Dan foi deitar à tarde, vou atrás dar um beijo e fechar as janelas.
Vejo a casa da vizinha, tão bem cuidada, tão perfeita, nunca havia visto uma casa tão bem tratada. Lembra a casa da cunhada de “Mon oncle” de 
Jacques Tati. Todos os dias lembro do filme olhando da minha varanda os caminhos traçados no jardim, as plantas aparadas milimetricamente, a fonte na piscina recente.

- Coitada de vizinha, ficou viúva tão cedo.
- Por que está dizendo isto, mãe?
- Porque o marido dela morreu.
- Como você sabe que ele morreu?
- Por que eu sei, ele sumiu.
- Você é maluca, mãe, ele pode ter viajado...
- Eu sei, pode ter ido atrás de outra mulher, pode estar doente na cama... mas ele morreu.
- Credo, mãe, você é doida mesmo, inventa cada coisa.
- Não estou inventando, o pobre do homem amava tanto esta casa, acabou de fazer a piscina e mal aproveitou, morreu.
- De onde você tirou isto, mãe? Esta tua maluquice?
- No dia do seu aniversário, eu acordei às sete e quinze- sei a hora porque você havia acabado de sair para a escola- abri a varanda e em vez de ver o vizinho fumando seu cigarrinho na varanda esperando o táxi, eu vi dois carros na porta e gente andando pela varanda nervosamente.
- Como você sabe que estavam nervosos?
- Ah, Dan, tinha um homem que se parecia com o vizinho que andava de lá para cá, angustiado.
- Pensei primeiro que a casa tivesse sido assaltada, Betânia, quando chegou, pensou na possibilidade da mulher ter morrido e não o marido, pensou em seqüestro, também, mas não havia carro da policia...
- Você fica vigiando a casa dos vizinhos, mãe, que feio...
- É impossível não ver, filho, é como no filme do Hitchcock. Lá pelas duas da tarde, apareceu a mocinha na varanda, ela nem conseguia andar direito. As pessoas da manhã já haviam ido embora. O namorado chega e ela chora abraçada a ele um tempão, mais tarde a mãe aparece e eu e Betânia ficamos aliviadas- não foi ela que morreu.
- Vocês duas são malucas, mãe.
- Meu filho, impossível não querer saber o que houve, eu gostava do vizinho só de ver, eu ficava namorando a casa com ele, o jardim impecável... não estou dizendo que paquerava o vizinho, viu? É da casa que eu gosto.
- Não sei porquê, casa mais cafona, toda arrumadinha.
- É o que ela representa, filho. Você não entende ainda destas coisas.
- Você é doida, quando fizeram a piscina disse que a filha deles iria casar, agora que o pai dela morreu...
- Ainda acho que ela vai casar. Depois te conto.

PS: Esta crônica é baseada em fatos verídicos, conto o final depois no II, alguns de vocês já conhecem o fim da história.

Trecho filme aqui.

sexta-feira, outubro 31, 2014

O poeta frugal- Carlos Drummond de Andrade




 



Chá das quatro com Drummond


Drummond se aproximou mais de mim, não sei exatamente porquê, depois da morte de Pedro Nava, fui amorosa com ele, fiz um cartão com um desenho bonito, caminhamos de mãos dadas por Ipanema...Ele sofreu muito com a morte de Nava, não se conformava, dizia: "Por que ele fez aquilo?"
Não sabíamos do drama que Nava vivia na ocasião.

Ele me perguntava, todos os dias, como seria a minha tarde no dia seguinte, e eu lhe dizia que teria um dia de trabalho cheio, às vezes mentia, eu não queria estar a sós com ele. Pode parecer estranho para muitos, mas é verdade, eu tinha receio de criar uma expectativa muito grande e não corresponder, não queria ser culpada por vê-lo infeliz.

Nesta ocasião ele rompeu com a namorada, por uma razão que não lembro, uma bobagem, disse que não a queria mais. Fiquei assustada, eu era muito discreta, não o procurava, esperava que ele se aproximasse.

Eu estava, naquele momento, completamente apaixonada por outro homem, impossível jogar charme a quem fosse, mesmo para o poeta. Eu lhe contava sobre o meu amor, e ele dizia que se eu quisesse manter a paixão deveria viver em casas separadas, como ele fez com a namorada, estavam juntos há trinta anos, como amantes.

Um dia eu o convidei para tomar chá comigo. Ele trouxe de presente uma gravura abstrata de Renina Katz, em azul, muito bonita. Elogiou meus desenhos, contou muitas histórias de flertes e namoricos que teve ao longo da vida. Preparei uma bela mesa com chá inglês, geleia dinamarquesa, quindim mineiro, torradas...Tomou chá, disse que a mesa era linda, mas ele era frugal. Todas as vezes que ouço esta palavra lembro dele- frugal- combina com o Carlos. Ele me pedia para chamá-lo assim, eu preferia Drummond, era como o conhecia antes, só quando me corrigia chamava-o pelo primeiro nome.

Tenho saudades de Carlos, o poeta frugal.



terça-feira, outubro 14, 2014

O zen e a bicicleta












A SIMPLICIDADE ZEN


Ao ver cinco dos seus alunos voltando do mercado de bicicleta, o Mestre Zen decidiu testá-los:
– Por que vocês estão montando as suas bicicletas?
O primeiro estudante respondeu:
– A bicicleta é para levar este saco de batatas. Eu estou contente por não ter precisado carregá-lo em minhas costas!
O professor elogiou o estudante, dizendo:
– Você é um rapaz inteligente. Quando envelhecer, não vai andar curvado, como eu.
O segundo aluno respondeu:
– Adoro ver o campo e as árvores enquanto pedalo no caminho!
O professor elogiou o estudante:
– Significa que seus olhos estão abertos e você vê o mundo.
O terceiro aluno respondeu:
– Eu fico feliz ao montar minha bicicleta, e começo a cantar.
O professor deu louvor ao terceiro aluno, acrescentando:
– Sua mente vai funcionar com a facilidade de uma roda recém-montada.
O quarto estudante do quarto respondeu:
– Andando de bicicleta, eu me sinto em harmonia com todos os seres.
O professor ficou satisfeito e disse:
– Você está andando no caminho de ouro do não-prejudicar.
O quinto aluno respondeu:
– Eu ando de bicicleta para andar de bicicleta.
O professor sentou-se aos pés do quinto aluno e disse:
– Eu sou seu discípulo.
via Consciência Cósmica


quinta-feira, setembro 18, 2014

Conto- O outro












Faz calor, as pernas dela doem inchadas, lamenta o dia todo:
"Ai minhas pernas... ai como doem". Fala com o cão, que a olha indiferente.
Teve lindas pernas, além de bonitas, lisas. Ele dizia: "Sente aqui do meu lado", ela colocava suas pernas sobre as dele, que as tocava- dedos suaves- alisando-as em direção à sua púbis. 
"São minhas estas pernas de seda, cor de âmbar", dizia. 
As mãos dele estão longe. Se tivesse morrido sofreria menos, mas não, está vivo, e as mãos alisam agora pernas torneadas e masculinas. Nunca pensou ser deixada por outro. Ainda o vê  sorrindo e se entristece. Às vezes se pergunta se é mais dolorido por ser um homem, ou seria maior a dor se fosse outra? Deve ser belo e forte. Ela é frágil, chora à toa. Não imagina o outro chorando no ombro dele.

As pernas incham porque mal caminha. Não só as pernas sofrem, sente falta de ar, não gosta de abrir as janelas. A casa cheira a mofo, respira com dificuldade. 
Não se importa.

quarta-feira, setembro 10, 2014












Daqui

"É como uma nuvem no céu. Quando a nuvem não está mais no céu, isso não significa que a nuvem morreu. A nuvem continua em outras formas, como a chuva, neve ou gelo. Assim, você pode reconhecer a sua nuvem em suas novas formas.
Se você gosta muito de uma bela nuvem e sua nuvem não está mais lá, você não deve ficar triste. Sua nuvem amada pode ter se transformado em  chuva convidando você: "Querida, querida. Não me vê em minha nova forma?" E então você não vai ficar impressionado com o sofrimento e desespero. Seu amado continuará sempre.  Meditação ajuda a reconhecer sua presença contínua em novas formas. E a nossa natureza é a natureza do nenhum nascimento e nenhuma morte ... a natureza de uma nuvem também. A nuvem nunca pode morrer. Uma nuvem pode se tornar neve ou granizo ... ou chuva. Mas é impossível que uma nuvem passe de ser para não-ser. E isso é verdade com o seu amado. Ela não morreu. Ela é prolongada em muitas novas formas. E você pode olhar profundamente e reconhecer-se em você e ao seu redor."

Thich Nhat Hanh